A triste estória de uma mula-sem-cabeça

A Mula-sem-cabeça, Burrinha-de-padre ou simplesmente Burrinha, é o castigo tremendo da concubina do padre católico. Na noite de quinta para sexta-feira muda-se numa mula, alentada e veloz, correndo com espantosa rapidez, até o terceiro cantar do galo. [...] Pela madrugada, exausta, recolhe-se, cheia de nódoas das pancadas. Volta à forma humana e recomeça o fadário na outra noite fatídica.  
CASCUDO, Luís da Câmara.  Geografia dos mitos brasileiros.  Rio de Janeiro, 1976.

Aquela fora uma noite assustadora para a pequena Abigail. De bruços sobre o colchão, pressionava o ventre com as mãos na tentativa de aliviar as fortes dores que sentia. Em meio ao desespero, chamou pelo socorro da mãe, como se estivesse num pesadelo febril, esquecendo-se de que poucas semanas antes, sua mãe havia falecido.
A luz da lua atravessava as frestas da janela de madeira e projetava-se na parede em ângulos oblíquos. Ao ver uma sombra na parede, Abigail imaginou que fosse sua mãe a confortá-la, chegando mesmo a sentir sua mão cálida a tocar-lhe o ventre, fazendo assim com que a dor aos poucos fosse diminuindo. Já mais calma, Abigail adormeceu.
A essência de um sonho começou a formar-se em seu espírito. Ela se viu em uma estação de trem, de braços dados com seu primo Afrânio, ele vestido de negro da cabeça aos pés, ela vestindo uma roupa velha e suja como se fossem trapos, os céus estavam tingidos de um vermelho sombrio. De repente, ela se viu de joelhos diante do primo, que estava mais alto e com a aparência de um homem adulto, diferente do primo carinhoso que ela tanto amava, Afrânio tinha um olhar severo e aproximando-se fez com que ela abrisse a boca, tendo nas mãos uma moeda de bronze onde figurava o Brasão Imperial. Afrânio colocou a moeda em sua língua e ela pôde sentir o gosto salobro do metal misturando-se à sua saliva, ao fechar a boca sentiu que sua língua estava queimando, tentou cuspir a moeda, mas não podia abrir a boca, tentou gritar por socorro, mas não conseguiu, tentou mover-se, mas estava paralisada, tentou rezar, mas não se lembrava do credo. Naquele desespero de morte, por sorte, o latido de um cão a despertou.
Tremendo e ofegante, percebeu que suas coxas estavam molhadas, era o sangue da lua, que escorrendo de suas entranhas, grafava em letras vermelhas o epílogo de sua efêmera infância.
Uma das irmãs de seu pai assumiu a função de acabar de criar a menina até que tivesse idade para se casar.
Os acontecimentos seguintes eram previsíveis, pois repetiam-se diariamente em todas as famílias honestas da recém proclamada, mas já velha, república brasileira. A jovem Abigail, agora com dezesseis anos, dona de um par de olhos verdes que cintilavam como esmeraldas, foi dada em casamento a José Belmiro, um imigrante português que vinha fazendo fortuna com o cultivo de fumo. Belmiro era um homem alto, com um rosto alongado e de poucas palavras, mantinha um bigode castanho bem aparado, contava pouco mais de trinta e cinco anos, tinha olhos tristes.
A noiva mantinha um sorriso doce, renovado pela esperança de uma vida menos sofrida ao lado daquele homem que mal conhecia, mas que parecia ser um bom cristão. As irmãs de seu pai comentavam da sorte que ela teria em desposar aquele homem tão bem apessoado, falavam dos luxos que ela teria em sua nova casa, invejavam sua juventude e a advertiram para que ela engravidasse logo, ensinando-lhe os mais estranhos truques e simpatias.
As núpcias entretanto não corresponderam às ilusões da menina. Não houve dor, muito menos os tais tremores e gemidos que as tias tanto falaram. Apenas pêlos, saliva, suor e sêmen. Ao fim do coito, Belmiro retirou o penico embaixo da cama e ela pôde ouvir o barulho da urina no metal, assim como sentir o cheiro forte que exalava do urinol. Sentiu vontade de urinar também, mas estava envergonhada. Percebeu seu marido voltando a deitar-se, ajeitando o travesseiro e virando-se para o outro lado da cama. Após um longo silêncio, pôde ouvi-lo sussurrando uma Ave-Maria.
Essa rotina repetiu-se quase todas as noites por um ano e por mais que tentasse fazer as simpatias que as outras mulheres ensinavam, Abigail não dava sinais de que iria engravidar. Em seu íntimo, Abigail temia a gravidez, pois tinha medo de morrer no parto como a mãe, que falecera tentando parir um filho natimorto.
Belmiro por sua vez, era indiferente aos comentários familiares e assim como Abigail, não se mostrava tão preocupado com o destino de sua prole. Começou a fazer longas viagens de negócios ao Rio de Janeiro e numa dessas viagens apresentou uma febre misteriosa, vindo a falecer em poucas semanas.
A morte prematura de Belmiro atravessou violentamente a vida de Abigail.  A jovem viúva não sabia como proceder diante de todas as formalidades que eram-lhe exigidas e mais uma vez viu-se sendo conduzida pelas tias. O cenário lembrava a morte de sua mãe, o cheiro das velas causava-lhe ânsia. Estava realmente triste com a morte de Belmiro, sentia pena dele e sentia-se perdida.  Em certo momento, na noite do velório percebeu que era a única pessoa no mesmo ambiente que o defunto e olhando para o esquife, indagou consigo mesma se algum dia eles realmente se amaram, se em algum momento desse breve casamento eles haviam sido felizes. O vazio em sua alma foi a única resposta que recebeu.
O silêncio e a solidão em sua casa deixaram-na melancólica. Aos poucos foi perdendo o desejo de sair de casa, de cuidar da casa, passou a comer cada vez menos e a descuidar-se de sua aparência. As tias a consideravam uma viúva honesta, que mostrava a todos o seu verdadeiro sofrimento, seu pai e seus irmãos mais velhos assumiram alguns cuidados da propriedade, mas quase não a visitavam.
Por meses, Abigail entregou-se a essa vida adoecida, passava horas dormindo, sonhos e realidade eram separadas por uma linha tão tênue que era difícil diferenciá-los. Em seus sonhos figuravam aparições de sua mãe e de Belmiro, lembranças de sua infância e pesadelos terríveis que envolviam correntes e uma casa em chamas. Para aliviar os pesadelos, Abigail passou a dormir agarrada a um terço de prata que pertencera à sua mãe e sempre que acordava em sobressaltos, se agarrava às contas do rosário até que tornasse a adormecer.
A chegada de um querido visitante trouxe um pouco de vida aos olhos da jovem viúva. Recém ordenado ao sacerdócio seu primo Afrânio tornou-se padre auxiliar na pequena igreja de Santa Dinfna. Ao rever seu primo, Abigail sentiu pela primeira vez em meses, vergonha de sua atual aparência. Chorou muito quando ele adentrou o aposento e não queria olhá-lo nos olhos. Afrânio sentou-se ao seu lado na cama e confortou a prima com um caloroso abraço fraterno. Abigail aconchegou-se no abraço do primo e permitiu-se cair em prantos, numa violenta catarse. Afrânio permaneceu em silêncio, acariciando os cabelos da prima, enquanto ela se acalmava. Um pouco mais tarde, naquele mesmo dia, Abigail chegou a levantar-se da cama, com certa dificuldade acompanhou seu primo até a varanda, onde se sentaram e juntos e com saudades recordaram os tempos de infância.
O jovem padre passou a visitá-la todos os dias. Abigail tomou novos ânimos, voltou a cozinhar e preparava sempre os pratos que Afrânio apreciava, tanto doces como salgados. Afrânio se fartava e muitas vezes levava as sobras em um pratinho que ela mesma preparava. Faziam longos passeios ao entardecer, caminhando de braços dados pelos espaços da propriedade. Semelhantemente, Abigail começou a frequentar todas as missas que ele celebrava e comparecia a todos os eventos paroquiais. Sua devoção era admirada por todos, menos por uma pessoa - sua tia Leontina, a mãe de Afrânio.
D. Leontina não via com bons olhos a afeição que os primos sentiam desde que eram crianças. Ela sempre temeu que eles se apaixonassem e isso afastasse Afrânio de sua vocação religiosa. Nos primeiros dias de vida, Afrânio era um bebê muito doente, o próprio médico já havia desenganado o pequenino quando D. Leontina fez uma promessa para Santa Dinfna, de que se a criança sobrevivesse, ela o enviaria ao seminário para tornar-se um padre e entregar sua vida ao sacerdócio. Foi assim então que o pequeno Afrânio, teve seu destino traçado desde o berço.
De repente, D. Leontina parecia estar revivendo um pesadelo. Observava preocupada a forma apaixonada com que os primos se entreolhavam, as discretas carícias que trocavam, os longos e solitários passeios que faziam ao entardecer. Em seu íntimo, passou a odiar Abigail e decidiu que de alguma forma voltaria a separá-los.
Entretanto, já era tarde demais para apagar a paixão que Abigail nutria secretamente por seu primo. Sonhava com ele e seus  sonhos eram intensos, salpicados por momentos de pura lascívia, imaginava-se sendo possuída por Afrânio, chegava a sentir o seu cheiro e sua respiração, seus sonhos eram vívidos, lúbricos, acordava em êxtase e arrependida do prazer que sentira em seu sonho,  acreditando ter pecado, ajoelhava-se ao lado da cama com seu terço em mãos e rezava aos prantos até o raiar da aurora. Muitas vezes, enquanto rezava, sentia uma presença estranha dentro do seu quarto, como se um anjo sombrio estivesse próximo às suas costas e a observasse. Com medo, ela não conseguia virar o rosto e pressionava com força o rosário contra os lábios, enquanto apertava os olhos e murmurava as orações.
Em alguns momentos, Abigail pensou em afastar-se do primo, mas não resistia ao seu sorriso perfeito, ao seu toque carinhoso quando a levava pelo braço e muito menos, às palavras que dele ouvia todos os dias. A jovem sentia que estar perto dele era como beber de um cálice sagrado, um vinho proibido que a enebriava.
Durante as missas sentava-se nos primeiros bancos e mantinha seus olhos atentos em cada movimento que o padre fazia. Sentia como se ele estivesse olhando apenas para ela, como se ignorasse a todos que ali estavam. Acreditava vê-lo sorrindo para ela enquanto recitava o sermão, isso a ruborizava, sentia arrepios percorrendo-lhe o corpo e ao mesmo tempo uma angústia intensa, pois acreditava piamente que esses sentimentos que brotavam do seu âmago eram em si sujos e pecaminosos.
Abigail percebia o olhar de julgamento no rosto da imagem de Santa Dinfna, evitava olhar para a imagem, mas era inútil. Quando fechava os olhos, a imagem da santa aparecia em seus pensamentos como uma cabeça flutuante e maligna, quando abria os olhos via a imagem da santa intacta em seu devido lugar, mas tinha a impressão de que a imagem tinha um sorriso sarcástico, como se estivesse prestes a gritar a todos o seu terrível segredo.
Sentia-se culpada por mentir ao padre no confessionário, afinal ela não não se atreveria a contar aqueles pecados lascivos que cometia em seus pensamentos, muito menos estando diante do próprio objeto de seu desejo, mas precisava confessar-se, pois ansiava pelo momento da comunhão, quando poderia sentir os dedos de Afrânio tocando levemente seus lábios ao introduzir a hóstia em sua boca.  Os breves segundos em que beijava a mão do padre eram para ela como longos e intensos momentos, onde ela explorava com os lábios a textura e o calor da sua pele como quem sorve a polpa de uma fruto.
D. Leontina desconfiava que Afrânio também alimentava os desejos da prima, mas não ousaria interpelar o jovem sacerdote, antes decidiu intervir falando diretamente com Abigail. Numa visita inoportuna  e usando de um tom ameaçador, acusou severamente a sobrinha de insinuar-se para o primo como se fosse uma prostituta de bordel, apontou com riqueza de detalhes cada uma das atitudes da jovem viúva, censurando-as com veemência. Abigail ouviu tudo em silêncio, imóvel como se estivesse em um transe, olhava para o piso enquanto a tia esbravejava ofensas à sua moral e a insultava com os mais rebuscados adjetivos pejorativos que podiam ser encontrados no vocabulário latino.
Em certo momento, Abigail já não mais ouvia o sermão caloroso de sua tia, mas sentia como se muitas vozes falassem simultaneamente em sua cabeça, como se estivesse em uma feira. Vozes de homens e mulheres, crianças e animais, risos e lamúrias, ouvia seu nome, era sua mãe chamando, ouvia as vozes chamando seu nome, muitas vozes alternando-se:
_ Abigail! dizia uma das vozes - Rasgue o pescoço dela com essa tesoura em sua mão.
Naquele momento, voltou a si e percebeu que estava mesmo segurando a tesoura com a qual cortava as linhas de um bordado. As vozes pararam e apenas a tia continuava com sua repreensão. Abigail sentiu uma presença estranha atrás de si, como se alguém a observasse, quando virou percebeu que nada havia, a não ser um quadro com a pintura de um corcel negro que desde os tempos que Belmiro estava vivo, sempre estivera naquele parede.
Ao final de sua ralhação, D. Leontina ameaçou Abigail dizendo:
_ Sabes o que acontece às mulheres que se apaixonam por padres, minha filha, sabes?
Abigail permanecia em silêncio, enquanto a tia respondia à sua própria pergunta retórica:
_ As mulheres que se apaixonam por padres são amaldiçoadas e viram mulas-sem-cabeça! Isso já aconteceu várias vezes, Abigail, minha mãe contava que ouviu falar de uma mulher que seduziu um padre e virou mula sem-cabeça! Toda noite de quinta pra sexta-feira, na Quaresma ela se transformava numa mula maldita que tinha uma tocha de fogo no lugar da cabeça e que corria por 7 vilarejos na mesma noite até o galo cantar 3 vezes. Pela manhã as pessoas encontravam essa mesma mulher totalmente nua, toda ferida perto da porteira de alguma fazenda ou pedindo perdão arrependida na porta de alguma igreja abandonada. Quer ser amaldiçoada, Abigail, quer virar mula-sem-cabeça?
Abigail sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo. Nunca imaginou que se apaixonaria por um padre, ainda mais por seu próprio primo, a culpa por esse sentimento a corroía e agora, também temia ser amaldiçoada a vagar como uma criatura demoníaca excomungada e destinada ao inferno. Sem responder nenhuma palavra a D. Leontina, Abigail retirou-se para seus aposentos. A tia por sua vez, compreendendo o embaraço da sobrinha deixou a casa sem fazer cerimônias, convicta de haver cumprido sua missão e de haver assustado a jovem.
Naquela noite Abigail não conseguiu dormir. Seu sono era perturbado por pesadelos que a despertavam, sentia uma presença no quarto e quando tentava adormecer, ouvia vozes na sua cabeça, vozes que conversavam entre si e que falavam dela. Ela ouvia nitidamente as vozes insultarem-na, uma voz de mulher se destacava, era uma voz irônica que repetia: “ele irá cavalgar nela, todos iremos”, enquanto outra voz dizia “vai acabar enlouquecendo” e outra dizia “vai matar a velha, é certo”, ao fundo ouvia-se o badalo de um sino, insistente, estridente, em meio ao choro de crianças que clamavam pela mãe, podia ouvir-se o apito de um trem.
Ela se ajoelhou e começou a rezar o terço, mais uma vez colocando-o próximo a boca enquanto repetia as rezas. Entretanto, as vozes  continuavam, dessa vez zombando das rezas que ela proferia, misturando as palavras e fazendo rimas profanas com o texto sagrado. A voz de mulher que se diferenciava das demais repetia seu nome incessantemente. Naquele desespero, Abigail gritou: “Saiam da minha cabeça!”.
Abigail abriu os olhos e percebeu que as vozes tinham cessado. O quarto estava iluminado apenas por uma vela que tremeluzia solitária. A jovem continuou suas orações em silêncio, sua respiração era pesada, lenta, misturada aos soluços de um suave choro incontido. Seus joelhos doíam, seus cotovelos doíam, sua alma doía.
Ao terminar suas preces, deitou-se novamente sob o dossel, virou-se para o lado, colocou as mãos entre os joelhos e tentou entregar-se novamente ao sono. Aos poucos, suas pálpebras foram fechando, seu corpo ficando inerte, não conseguia se mexer, mas sentia que a luz da vela estava aumentando, criando um clarão dentro do quarto, que ela percebia mesmo com os olhos fechados, tentou levantar-se, mas seu corpo não respondia, sentiu apenas um zumbido intenso em seus ouvidos e sentia o clarão da vela. Aos poucos, o zumbido foi diminuindo e ela foi se acalmando, o clarão da vela parecia diminuir também, Abigail já estava ficando mais calma quando a voz de mulher falou novamente em seu ouvido: “Eu ainda estou aqui”. Assustada, Abigail finalmente abriu os olhos, mas não viu nada, a vela já estava apagada e tudo estava normal. Quando voltou a fechar os olhos, ouviu o barulho de cascos do lado de fora da casa, como se um cavalo estivesse passeando pelo quintal. Por fim, foi vencida pelo cansaço e perdeu os sentidos.
Abigail não compareceu à missa naquela manhã de domingo, quatorze de fevereiro de 1904, estavam na lua nova e faltavam apenas três dias para o início da quaresma. Toda a comunidade sentiu a sua falta, D. Leontina mesmo satisfeita, estava preocupada, pois sabia que seu filho a visitaria naquele mesmo dia, a velha estava convicta de que Abigail nada diria a ele sobre o tema que conversaram, mas ficou vigilante, para garantir que Afrânio não a encontrasse sozinho.
Abigail contudo não estava em casa naquela tarde e ninguém sabia informar seu paradeiro. Quando procurados, seus pais e seus irmãos, nada souberam dizer e indagaram que a mesma deveria estar caminhando pela propriedade ou visitando alguma conhecida. D. Leontina concordou com o irmão, tranquilizou Afrânio e ambos voltaram para a casa paroquial.
Afrânio continuou preocupado com o sumiço repentino de Abigail, mas tranquilizou-se sabendo que a prima já estava recuperada do luto que vivenciara e até gostava de saber que a prima já estava a andar por aí sozinha. Naquela noite, ele também tivera pesadelos, dos quais não se lembrava direito, mas que envolviam agulhas e outros equipamentos médicos.
Na segunda-feira pela manhã D. Leontina amanheceu com dores renais e precisou dos cuidados do filho. Afrânio teve então que adiar sua costumeira visita à prima, para dedicar-se ao cuidado de sua mãe. As dores da velha persistiram pelos dois primeiros dias da semana, mas depois de um tratamento intenso com chá de quebra-pedra e folhas de abacate, D. Leontina já estava bem melhor e pronta para a Missa da Quarta-Feira de Cinzas, que marcava o início dos jejuns da Quaresma.
Quando Abigail entrou na igreja os olhos de toda a paróquia se voltaram para sua entrada. A jovem estava vestida com um vestido de seda em tons de marrom e cinza, os cabelos castanhos presos em um penteado discreto, Abigail caminhou até o terceiro banco e sentou-se calmamente. Tinha uma certa preocupação no semblante e evitava olhar as pessoas, mantinha a cabeça baixa e os olhos no chão.
Não olhou em nenhum momento para a imagem de Santa Dinfna, mas parecia estar murmurando pequenas rezas. Afrânio observava preocupado, sentia algo diferente. Os olhos da prima que ficavam sempre postos nele, estavam oscilando horizontalmente ou fixados para o lado inferior esquerdo, não olhando para o altar em nenhum momento. O jovem padre apressou as formalidades para que pudesse logo iniciar a imposição de cinzas e assim aproximar-se da prima.
Os fiéis organizaram uma fila, Abigail levantou-se e tomou seu lugar, sentia um tremor intenso e dores pelo corpo, como se tivesse caído de um cavalo, a voz de mulher continuava falando em sua cabeça, mesmo dentro do santuário, mas Abigail a ignorava e acreditava que com a imposição de cinzas, aquele castigo terminaria. A voz continuava blasfemando, distorcendo o latim e mesclando-o com insultos em português: “ordinarium meretricem miserere nobis” e provocações como “ele vai cavalgar você! Não é o que você quer, Abigail” e as outras vozes se ouviam ao longe dizendo “Mula-sem-cabeça”, “Mula Maldita”, e vozes de crianças dizendo “quem chegar por último é a mulher do padre”, seguida de risos que se misturavam às palavras sacras dos sacerdotes.
Quando chegou a sua vez, Abigail olhou com angústia nos olhos do primo e não conteve as lágrimas, dizendo apenas: “Me ajude, por favor!”. O primo desconcertado, continuou a cerimônia, tomando nos dedos um pouco da cinza benzida, estendeu a mão e desenhou uma cruz na testa de Abigail. Quando sentiu sua pele sendo tocada pelas cinzas, Abigail sentiu como se uma brasa ardente queimasse sua fronte e soltou um grito estridente, como se tivesse sendo marcada com um ferro em chamas.
A jovem afastou-se do padre e correu para a pia de água benta tentando molhar o ferimento e diminuir a queimadura. O grito de Abigail causou um escândalo e as pessoas ao redor começaram a observar a jovem preocupados com o que poderia estar acontecendo. Já prestes a tocar a água benta, a voz de mulher advertiu-a cantarolando: “Isso vai te queimar! Isso vai te queimar! Ele vai te cavalgar! Você vai ter que aguentar!”
Abigail teve medo de tocar a água benta e desistiu, mas a queimadura em sua testa continuava como se fosse um ferimento aberto, Afrânio tentou acalmar a moça, mas ela o rejeitava afastando-o com a mão esquerda, enquanto a mão direita pousava sobre a cruz de cinzas em sua testa. A igreja estava em silêncio, algumas senhoras idosas se persignavam, o velho sacerdote esperava alguma atitude de Afrânio que estava parado sem saber o que fazer. Sentia a perplexidade no silêncio das pessoas que a olhavam e o julgamento cruel das vozes em sua cabeça, que a quietude tornava mais nítidas.
Envergonhada e sozinha, Abigail levantou-se e deixou a igreja, caminhando pelo meio do santuário. Ao se aproximar da tia, olhou-a nos olhos com uma expressão de ódio. D. Leontina chegou a sentir tonturas e sentou-se abalada. Afrânio deixando a cerimônia aos cuidados do seu superior, seguiu ao encontro da prima, sob o olhar aterrorizado de D. Leontina. Sob o sol quente do meio dia, Afrânio correu em vão na tentativa de alcançar Abigail, que desapareceu inexplicavelmente.
Ao fim da tarde, Afrânio e os familiares organizaram uma busca pela moça nos arredores do vilarejo. D. Leontina comentou com D. Eulália que suspeitava que Abigail estava se transformando em uma mula-sem-cabeça. Já D. Eulália preocupada preveniu suas filhas, para que não saíssem de casa à noite. As filhas de D. Eulália, rapidamente comentaram com suas primas que comentaram com as vizinhas e assim a busca por Abigail ganhou verdadeiros ares de Inquisição.
Afrânio suspeitava de um local para onde Abigail poderia ter ido, mas pensando em preservar a prima, decidiu que não iria levar as pessoas até lá. Premeditadamente, elaborou um arranjo para que ele conseguisse chegar sozinho ao local onde Abigail se refugiava. Era uma gruta de pedra, com uma pequena nascente, que ficava na propriedade de seu pai e na qual havia um pequeno oratório abandonado, que devia ter pertencido a algum devoto eremita.
O instinto de Afrânio estava correto. Abigail estava lá, deitada no escuro em um colchão improvisado de capim, chorando, com os ouvidos tapados e com o terço junto aos lábios. Prevendo a escuridão, ele levou algumas velas e iluminou um pouco o local. Ao vê-lo, Abigail confessou:
_ Eu não tenho culpa de te amar, eu não queria pensar aquelas coisas, eu não quero ser uma mula-sem-cabeça! Tire essa maldição de mim antes que comece e se for preciso me mate!
Afrânio ficou espantado com aquelas palavras e nada respondeu. Apenas sentou-se junto a sua prima, pensando em confortá-la e passar a noite com ela ali, protegendo-a até que amanhecesse.
A presença do primo trouxe-lhe um pouco de paz, as vozes entretanto continuavam dizendo coisas vis e incentivando-a a seduzi-lo ali: “Ele não resistirá se você se despir”, “Ele vai montá-la essa noite”, “isso era tudo o que você queria, não é, Abigail?
Ela ignorava as vozes, mas ainda sentia a cabeça queimando, como se estivesse em chamas. sentia que a queimadura aumentava e subia por sua cabeça, destruindo seu couro cabeludo. A voz de mulher se destacou em seu pensamento e declarou entre as gargalhadas das outras vozes: “Está começando, Abigail! Ainda esta noite você irá galopar por sete vilarejos, sua cabeça vai queimar até ficar como uma tocha!” No desespero daquele fogo que sentia em sua testa, afastou-se de Afrânio e sem dar-lhe explicações saiu correndo da gruta e embrenhou-se na mata. Afrânio tentou alcançá-la, mas não conseguiu e perdeu-a de vista.
Enquanto corria Abigail sentia sua cabeça incendiando-se, tentava apagar as chamas com as mãos, mas não sentia mais seu rosto, era como se suas mãos apenas atravessassem as chamas que envolviam sua cabeça. Ela continuou correndo pelo descampado sentindo a cabeça em chamas, estava descalça, mas não sentia dores ao pisar as pedras, um sentimento de liberdade tomou conta de si, pois enquanto corria, as vozes calavam em sua cabeça. Ao passar diante de uma porteira, Abigail parou. A escuridão da noite parecia-lhe menos intensa, o fogo que sentia em sua cabeça parecia estar consumindo as vozes, seu corpo parecia mais forte e seu desejo aceitar o cruel destino da maldição e correr até o fim do mundo. Diante daquela porteira, Abigail entregou-se ao que ela acreditava ser o processo de metamorfose. A jovem despiu completamente o vestido que já estava parcialmente destruído, deu alguns passos sentindo o vento da noite em sua pele, alguns cães latiam próximo a cerca de madeira, pareciam reverenciá-la, ela gritou para eles e percebeu que sua voz não saía, mas seu grito silencioso fazia aumentar as chamas em sua cabeça, ela gritou então mais alto e com seu grito uma tocha radiante de fogo clareou o pasto. Abigail sentiu como se uma onda de calor percorresse todo seu corpo e caiu em terra, sentia-se mais pesada e forte, sentia os ossos de seus braços ganhando vida, sua pele escurecia e pêlos cresciam por todo o seu corpo, tremores intensos a sacudiam e ela rolava sobre a vegetação rasteira, sentiu sua coluna alongando-se e formando uma longa cauda que ela conseguia mover como se fosse um terceiro braço. Sentindo-se uma quadrúpede equina, Abigail experimentou um misto de confusas emoções, soltou outro grito silencioso e sentiu sua cabeça flamejante iluminar a planície. Aceitando seu terrível destino, Abigail continuou galopando sem destino, por aquela escura noite de Quaresma.
Pela manhã, despertou ao lado de uma porteira não muito longe dali, uma mula cinzenta pastava tranquilamente a poucos metros de onde ela estava caída, nua, com o corpo cheio de hematomas e arranhões. Não se lembrava de como chegara até ali. Sua última lembrança era a de ter entrado na fila para receber as cinzas benzidas na igreja. Sem saber o que fazer, caiu em prantos e chorou copiosamente, desejando a morte.
Naquele estado depressivo, entregou-se ao sentimento de vazio, inerte, imóvel, solitária, ter sono já era um alívio, como se uma gota de misericórdia gotejasse do céu e apagasse seu sofrimento por alguns momentos. As vezes, abria os olhos e via os animais, cavalos, vacas, aves brancas com pernas compridas, formigas passeavam pelo seu corpo, se a mordiam ela já não sentia. Voltava a fechar os olhos e adormecia novamente. Não sentiu fome ou sede, não sentia dor, não sentia nada.
Abriu novamente os olhos e viu um par de botas diante dos seus olhos, logo o calor suave do que deveria ser um tecido confortável cobrindo sua pele. Sentiu-se envolvida como um bebê, como se alguém a carregasse nos braços. Talvez um anjo caridoso a tivesse recolhido, um anjo com botas de couro curtido. Nas vezes em que abria os olhos, percebia rostos familiares, mas suas vozes eram longínquas, assim como suas lembranças. Uma voz continuava falando em sua cabeça, uma voz menos agressiva que perguntava: “o que será dela?”, sem receber resposta.
Um dia percebeu que a estavam vestindo para sair. Reconheceu o rosto de seus pais e seus irmãos, como se lamentassem algo. Ela se percebia caminhando, mas era como se observasse outra pessoa vivendo a sua vida. Enfim reconheceu o rosto doce de seu primo Afrânio, vestido em roupas comuns, sem o costumeiro traje sacerdotal. Enquanto caminhavam pela rua, ela percebia o rosto das pessoas que conhecia e a cumprimentavam, ela tentou sorrir para elas, mas não parecia surtir efeito, pois o olhar que recebia delas não era de alegria, senão de pena.
Abigail reconheceu quando chegaram à estação de trem. Afrânio carregava algumas malas e então ela percebeu que estavam partindo em alguma viagem. Não sabia para onde iriam, mas estava feliz porque Afrânio estava com ela. As vezes, ela percebia seu rosto aproximando-se do dela e tocando sua boca com um lenço. Talvez quisesse beijá-la, mas desistia. Quando embarcaram no trem, ele sentou-a próximo a uma janela, o mundo passava rápido pela janela, muitas e muitas montanhas verdes, animais, pássaros, um rio comprido. As vezes, ela adormecia, mas despertava com as bruscas paradas ou com o barulho intenso do apito do trem.
Quando enfim chegaram ao seu destino, Abigail não imaginava o motivo de estarem ali, mas sentiu inexplicavelmente um imenso alívio, uma esperança de voltar a ser feliz que ficava cada vez mais intensa com o delicado perfume de rosas que havia naquele lugar.

2 comentários:

  1. Adoro histórias misteriosas, principalmente quando envolvem personagens folclóricos, aguçam minha curiosidade. Seu conto me prendeu do início ao fim, me surpreendendo como sempre. Aquela sensação de ser mais uma história romântica e que no desenrolar entra nos campos do mistério, sensacional!!!!

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  2. Obrigado pelo feedback Ana! Suas impressões são sempre um referencial para mim! Fico feliz que tenha gostado! Grande abraço!

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