A triste estória de uma mula-sem-cabeça

A Mula-sem-cabeça, Burrinha-de-padre ou simplesmente Burrinha, é o castigo tremendo da concubina do padre católico. Na noite de quinta para sexta-feira muda-se numa mula, alentada e veloz, correndo com espantosa rapidez, até o terceiro cantar do galo. [...] Pela madrugada, exausta, recolhe-se, cheia de nódoas das pancadas. Volta à forma humana e recomeça o fadário na outra noite fatídica.  
CASCUDO, Luís da Câmara.  Geografia dos mitos brasileiros.  Rio de Janeiro, 1976.

Aquela fora uma noite assustadora para a pequena Abigail. De bruços sobre o colchão, pressionava o ventre com as mãos na tentativa de aliviar as fortes dores que sentia. Em meio ao desespero, chamou pelo socorro da mãe, como se estivesse num pesadelo febril, esquecendo-se de que poucas semanas antes, sua mãe havia falecido.
A luz da lua atravessava as frestas da janela de madeira e projetava-se na parede em ângulos oblíquos. Ao ver uma sombra na parede, Abigail imaginou que fosse sua mãe a confortá-la, chegando mesmo a sentir sua mão cálida a tocar-lhe o ventre, fazendo assim com que a dor aos poucos fosse diminuindo. Já mais calma, Abigail adormeceu.
A essência de um sonho começou a formar-se em seu espírito. Ela se viu em uma estação de trem, de braços dados com seu primo Afrânio, ele vestido de negro da cabeça aos pés, ela vestindo uma roupa velha e suja como se fossem trapos, os céus estavam tingidos de um vermelho sombrio. De repente, ela se viu de joelhos diante do primo, que estava mais alto e com a aparência de um homem adulto, diferente do primo carinhoso que ela tanto amava, Afrânio tinha um olhar severo e aproximando-se fez com que ela abrisse a boca, tendo nas mãos uma moeda de bronze onde figurava o Brasão Imperial. Afrânio colocou a moeda em sua língua e ela pôde sentir o gosto salobro do metal misturando-se à sua saliva, ao fechar a boca sentiu que sua língua estava queimando, tentou cuspir a moeda, mas não podia abrir a boca, tentou gritar por socorro, mas não conseguiu, tentou mover-se, mas estava paralisada, tentou rezar, mas não se lembrava do credo. Naquele desespero de morte, por sorte, o latido de um cão a despertou.
Tremendo e ofegante, percebeu que suas coxas estavam molhadas, era o sangue da lua, que escorrendo de suas entranhas, grafava em letras vermelhas o epílogo de sua efêmera infância.
Uma das irmãs de seu pai assumiu a função de acabar de criar a menina até que tivesse idade para se casar.
Os acontecimentos seguintes eram previsíveis, pois repetiam-se diariamente em todas as famílias honestas da recém proclamada, mas já velha, república brasileira. A jovem Abigail, agora com dezesseis anos, dona de um par de olhos verdes que cintilavam como esmeraldas, foi dada em casamento a José Belmiro, um imigrante português que vinha fazendo fortuna com o cultivo de fumo. Belmiro era um homem alto, com um rosto alongado e de poucas palavras, mantinha um bigode castanho bem aparado, contava pouco mais de trinta e cinco anos, tinha olhos tristes.
A noiva mantinha um sorriso doce, renovado pela esperança de uma vida menos sofrida ao lado daquele homem que mal conhecia, mas que parecia ser um bom cristão. As irmãs de seu pai comentavam da sorte que ela teria em desposar aquele homem tão bem apessoado, falavam dos luxos que ela teria em sua nova casa, invejavam sua juventude e a advertiram para que ela engravidasse logo, ensinando-lhe os mais estranhos truques e simpatias.
As núpcias entretanto não corresponderam às ilusões da menina. Não houve dor, muito menos os tais tremores e gemidos que as tias tanto falaram. Apenas pêlos, saliva, suor e sêmen. Ao fim do coito, Belmiro retirou o penico embaixo da cama e ela pôde ouvir o barulho da urina no metal, assim como sentir o cheiro forte que exalava do urinol. Sentiu vontade de urinar também, mas estava envergonhada. Percebeu seu marido voltando a deitar-se, ajeitando o travesseiro e virando-se para o outro lado da cama. Após um longo silêncio, pôde ouvi-lo sussurrando uma Ave-Maria.
Essa rotina repetiu-se quase todas as noites por um ano e por mais que tentasse fazer as simpatias que as outras mulheres ensinavam, Abigail não dava sinais de que iria engravidar. Em seu íntimo, Abigail temia a gravidez, pois tinha medo de morrer no parto como a mãe, que falecera tentando parir um filho natimorto.
Belmiro por sua vez, era indiferente aos comentários familiares e assim como Abigail, não se mostrava tão preocupado com o destino de sua prole. Começou a fazer longas viagens de negócios ao Rio de Janeiro e numa dessas viagens apresentou uma febre misteriosa, vindo a falecer em poucas semanas.
A morte prematura de Belmiro atravessou violentamente a vida de Abigail.  A jovem viúva não sabia como proceder diante de todas as formalidades que eram-lhe exigidas e mais uma vez viu-se sendo conduzida pelas tias. O cenário lembrava a morte de sua mãe, o cheiro das velas causava-lhe ânsia. Estava realmente triste com a morte de Belmiro, sentia pena dele e sentia-se perdida.  Em certo momento, na noite do velório percebeu que era a única pessoa no mesmo ambiente que o defunto e olhando para o esquife, indagou consigo mesma se algum dia eles realmente se amaram, se em algum momento desse breve casamento eles haviam sido felizes. O vazio em sua alma foi a única resposta que recebeu.
O silêncio e a solidão em sua casa deixaram-na melancólica. Aos poucos foi perdendo o desejo de sair de casa, de cuidar da casa, passou a comer cada vez menos e a descuidar-se de sua aparência. As tias a consideravam uma viúva honesta, que mostrava a todos o seu verdadeiro sofrimento, seu pai e seus irmãos mais velhos assumiram alguns cuidados da propriedade, mas quase não a visitavam.
Por meses, Abigail entregou-se a essa vida adoecida, passava horas dormindo, sonhos e realidade eram separadas por uma linha tão tênue que era difícil diferenciá-los. Em seus sonhos figuravam aparições de sua mãe e de Belmiro, lembranças de sua infância e pesadelos terríveis que envolviam correntes e uma casa em chamas. Para aliviar os pesadelos, Abigail passou a dormir agarrada a um terço de prata que pertencera à sua mãe e sempre que acordava em sobressaltos, se agarrava às contas do rosário até que tornasse a adormecer.
A chegada de um querido visitante trouxe um pouco de vida aos olhos da jovem viúva. Recém ordenado ao sacerdócio seu primo Afrânio tornou-se padre auxiliar na pequena igreja de Santa Dinfna. Ao rever seu primo, Abigail sentiu pela primeira vez em meses, vergonha de sua atual aparência. Chorou muito quando ele adentrou o aposento e não queria olhá-lo nos olhos. Afrânio sentou-se ao seu lado na cama e confortou a prima com um caloroso abraço fraterno. Abigail aconchegou-se no abraço do primo e permitiu-se cair em prantos, numa violenta catarse. Afrânio permaneceu em silêncio, acariciando os cabelos da prima, enquanto ela se acalmava. Um pouco mais tarde, naquele mesmo dia, Abigail chegou a levantar-se da cama, com certa dificuldade acompanhou seu primo até a varanda, onde se sentaram e juntos e com saudades recordaram os tempos de infância.
O jovem padre passou a visitá-la todos os dias. Abigail tomou novos ânimos, voltou a cozinhar e preparava sempre os pratos que Afrânio apreciava, tanto doces como salgados. Afrânio se fartava e muitas vezes levava as sobras em um pratinho que ela mesma preparava. Faziam longos passeios ao entardecer, caminhando de braços dados pelos espaços da propriedade. Semelhantemente, Abigail começou a frequentar todas as missas que ele celebrava e comparecia a todos os eventos paroquiais. Sua devoção era admirada por todos, menos por uma pessoa - sua tia Leontina, a mãe de Afrânio.
D. Leontina não via com bons olhos a afeição que os primos sentiam desde que eram crianças. Ela sempre temeu que eles se apaixonassem e isso afastasse Afrânio de sua vocação religiosa. Nos primeiros dias de vida, Afrânio era um bebê muito doente, o próprio médico já havia desenganado o pequenino quando D. Leontina fez uma promessa para Santa Dinfna, de que se a criança sobrevivesse, ela o enviaria ao seminário para tornar-se um padre e entregar sua vida ao sacerdócio. Foi assim então que o pequeno Afrânio, teve seu destino traçado desde o berço.
De repente, D. Leontina parecia estar revivendo um pesadelo. Observava preocupada a forma apaixonada com que os primos se entreolhavam, as discretas carícias que trocavam, os longos e solitários passeios que faziam ao entardecer. Em seu íntimo, passou a odiar Abigail e decidiu que de alguma forma voltaria a separá-los.
Entretanto, já era tarde demais para apagar a paixão que Abigail nutria secretamente por seu primo. Sonhava com ele e seus  sonhos eram intensos, salpicados por momentos de pura lascívia, imaginava-se sendo possuída por Afrânio, chegava a sentir o seu cheiro e sua respiração, seus sonhos eram vívidos, lúbricos, acordava em êxtase e arrependida do prazer que sentira em seu sonho,  acreditando ter pecado, ajoelhava-se ao lado da cama com seu terço em mãos e rezava aos prantos até o raiar da aurora. Muitas vezes, enquanto rezava, sentia uma presença estranha dentro do seu quarto, como se um anjo sombrio estivesse próximo às suas costas e a observasse. Com medo, ela não conseguia virar o rosto e pressionava com força o rosário contra os lábios, enquanto apertava os olhos e murmurava as orações.
Em alguns momentos, Abigail pensou em afastar-se do primo, mas não resistia ao seu sorriso perfeito, ao seu toque carinhoso quando a levava pelo braço e muito menos, às palavras que dele ouvia todos os dias. A jovem sentia que estar perto dele era como beber de um cálice sagrado, um vinho proibido que a enebriava.
Durante as missas sentava-se nos primeiros bancos e mantinha seus olhos atentos em cada movimento que o padre fazia. Sentia como se ele estivesse olhando apenas para ela, como se ignorasse a todos que ali estavam. Acreditava vê-lo sorrindo para ela enquanto recitava o sermão, isso a ruborizava, sentia arrepios percorrendo-lhe o corpo e ao mesmo tempo uma angústia intensa, pois acreditava piamente que esses sentimentos que brotavam do seu âmago eram em si sujos e pecaminosos.
Abigail percebia o olhar de julgamento no rosto da imagem de Santa Dinfna, evitava olhar para a imagem, mas era inútil. Quando fechava os olhos, a imagem da santa aparecia em seus pensamentos como uma cabeça flutuante e maligna, quando abria os olhos via a imagem da santa intacta em seu devido lugar, mas tinha a impressão de que a imagem tinha um sorriso sarcástico, como se estivesse prestes a gritar a todos o seu terrível segredo.
Sentia-se culpada por mentir ao padre no confessionário, afinal ela não não se atreveria a contar aqueles pecados lascivos que cometia em seus pensamentos, muito menos estando diante do próprio objeto de seu desejo, mas precisava confessar-se, pois ansiava pelo momento da comunhão, quando poderia sentir os dedos de Afrânio tocando levemente seus lábios ao introduzir a hóstia em sua boca.  Os breves segundos em que beijava a mão do padre eram para ela como longos e intensos momentos, onde ela explorava com os lábios a textura e o calor da sua pele como quem sorve a polpa de uma fruto.
D. Leontina desconfiava que Afrânio também alimentava os desejos da prima, mas não ousaria interpelar o jovem sacerdote, antes decidiu intervir falando diretamente com Abigail. Numa visita inoportuna  e usando de um tom ameaçador, acusou severamente a sobrinha de insinuar-se para o primo como se fosse uma prostituta de bordel, apontou com riqueza de detalhes cada uma das atitudes da jovem viúva, censurando-as com veemência. Abigail ouviu tudo em silêncio, imóvel como se estivesse em um transe, olhava para o piso enquanto a tia esbravejava ofensas à sua moral e a insultava com os mais rebuscados adjetivos pejorativos que podiam ser encontrados no vocabulário latino.
Em certo momento, Abigail já não mais ouvia o sermão caloroso de sua tia, mas sentia como se muitas vozes falassem simultaneamente em sua cabeça, como se estivesse em uma feira. Vozes de homens e mulheres, crianças e animais, risos e lamúrias, ouvia seu nome, era sua mãe chamando, ouvia as vozes chamando seu nome, muitas vozes alternando-se:
_ Abigail! dizia uma das vozes - Rasgue o pescoço dela com essa tesoura em sua mão.
Naquele momento, voltou a si e percebeu que estava mesmo segurando a tesoura com a qual cortava as linhas de um bordado. As vozes pararam e apenas a tia continuava com sua repreensão. Abigail sentiu uma presença estranha atrás de si, como se alguém a observasse, quando virou percebeu que nada havia, a não ser um quadro com a pintura de um corcel negro que desde os tempos que Belmiro estava vivo, sempre estivera naquele parede.
Ao final de sua ralhação, D. Leontina ameaçou Abigail dizendo:
_ Sabes o que acontece às mulheres que se apaixonam por padres, minha filha, sabes?
Abigail permanecia em silêncio, enquanto a tia respondia à sua própria pergunta retórica:
_ As mulheres que se apaixonam por padres são amaldiçoadas e viram mulas-sem-cabeça! Isso já aconteceu várias vezes, Abigail, minha mãe contava que ouviu falar de uma mulher que seduziu um padre e virou mula sem-cabeça! Toda noite de quinta pra sexta-feira, na Quaresma ela se transformava numa mula maldita que tinha uma tocha de fogo no lugar da cabeça e que corria por 7 vilarejos na mesma noite até o galo cantar 3 vezes. Pela manhã as pessoas encontravam essa mesma mulher totalmente nua, toda ferida perto da porteira de alguma fazenda ou pedindo perdão arrependida na porta de alguma igreja abandonada. Quer ser amaldiçoada, Abigail, quer virar mula-sem-cabeça?
Abigail sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo. Nunca imaginou que se apaixonaria por um padre, ainda mais por seu próprio primo, a culpa por esse sentimento a corroía e agora, também temia ser amaldiçoada a vagar como uma criatura demoníaca excomungada e destinada ao inferno. Sem responder nenhuma palavra a D. Leontina, Abigail retirou-se para seus aposentos. A tia por sua vez, compreendendo o embaraço da sobrinha deixou a casa sem fazer cerimônias, convicta de haver cumprido sua missão e de haver assustado a jovem.
Naquela noite Abigail não conseguiu dormir. Seu sono era perturbado por pesadelos que a despertavam, sentia uma presença no quarto e quando tentava adormecer, ouvia vozes na sua cabeça, vozes que conversavam entre si e que falavam dela. Ela ouvia nitidamente as vozes insultarem-na, uma voz de mulher se destacava, era uma voz irônica que repetia: “ele irá cavalgar nela, todos iremos”, enquanto outra voz dizia “vai acabar enlouquecendo” e outra dizia “vai matar a velha, é certo”, ao fundo ouvia-se o badalo de um sino, insistente, estridente, em meio ao choro de crianças que clamavam pela mãe, podia ouvir-se o apito de um trem.
Ela se ajoelhou e começou a rezar o terço, mais uma vez colocando-o próximo a boca enquanto repetia as rezas. Entretanto, as vozes  continuavam, dessa vez zombando das rezas que ela proferia, misturando as palavras e fazendo rimas profanas com o texto sagrado. A voz de mulher que se diferenciava das demais repetia seu nome incessantemente. Naquele desespero, Abigail gritou: “Saiam da minha cabeça!”.
Abigail abriu os olhos e percebeu que as vozes tinham cessado. O quarto estava iluminado apenas por uma vela que tremeluzia solitária. A jovem continuou suas orações em silêncio, sua respiração era pesada, lenta, misturada aos soluços de um suave choro incontido. Seus joelhos doíam, seus cotovelos doíam, sua alma doía.
Ao terminar suas preces, deitou-se novamente sob o dossel, virou-se para o lado, colocou as mãos entre os joelhos e tentou entregar-se novamente ao sono. Aos poucos, suas pálpebras foram fechando, seu corpo ficando inerte, não conseguia se mexer, mas sentia que a luz da vela estava aumentando, criando um clarão dentro do quarto, que ela percebia mesmo com os olhos fechados, tentou levantar-se, mas seu corpo não respondia, sentiu apenas um zumbido intenso em seus ouvidos e sentia o clarão da vela. Aos poucos, o zumbido foi diminuindo e ela foi se acalmando, o clarão da vela parecia diminuir também, Abigail já estava ficando mais calma quando a voz de mulher falou novamente em seu ouvido: “Eu ainda estou aqui”. Assustada, Abigail finalmente abriu os olhos, mas não viu nada, a vela já estava apagada e tudo estava normal. Quando voltou a fechar os olhos, ouviu o barulho de cascos do lado de fora da casa, como se um cavalo estivesse passeando pelo quintal. Por fim, foi vencida pelo cansaço e perdeu os sentidos.
Abigail não compareceu à missa naquela manhã de domingo, quatorze de fevereiro de 1904, estavam na lua nova e faltavam apenas três dias para o início da quaresma. Toda a comunidade sentiu a sua falta, D. Leontina mesmo satisfeita, estava preocupada, pois sabia que seu filho a visitaria naquele mesmo dia, a velha estava convicta de que Abigail nada diria a ele sobre o tema que conversaram, mas ficou vigilante, para garantir que Afrânio não a encontrasse sozinho.
Abigail contudo não estava em casa naquela tarde e ninguém sabia informar seu paradeiro. Quando procurados, seus pais e seus irmãos, nada souberam dizer e indagaram que a mesma deveria estar caminhando pela propriedade ou visitando alguma conhecida. D. Leontina concordou com o irmão, tranquilizou Afrânio e ambos voltaram para a casa paroquial.
Afrânio continuou preocupado com o sumiço repentino de Abigail, mas tranquilizou-se sabendo que a prima já estava recuperada do luto que vivenciara e até gostava de saber que a prima já estava a andar por aí sozinha. Naquela noite, ele também tivera pesadelos, dos quais não se lembrava direito, mas que envolviam agulhas e outros equipamentos médicos.
Na segunda-feira pela manhã D. Leontina amanheceu com dores renais e precisou dos cuidados do filho. Afrânio teve então que adiar sua costumeira visita à prima, para dedicar-se ao cuidado de sua mãe. As dores da velha persistiram pelos dois primeiros dias da semana, mas depois de um tratamento intenso com chá de quebra-pedra e folhas de abacate, D. Leontina já estava bem melhor e pronta para a Missa da Quarta-Feira de Cinzas, que marcava o início dos jejuns da Quaresma.
Quando Abigail entrou na igreja os olhos de toda a paróquia se voltaram para sua entrada. A jovem estava vestida com um vestido de seda em tons de marrom e cinza, os cabelos castanhos presos em um penteado discreto, Abigail caminhou até o terceiro banco e sentou-se calmamente. Tinha uma certa preocupação no semblante e evitava olhar as pessoas, mantinha a cabeça baixa e os olhos no chão.
Não olhou em nenhum momento para a imagem de Santa Dinfna, mas parecia estar murmurando pequenas rezas. Afrânio observava preocupado, sentia algo diferente. Os olhos da prima que ficavam sempre postos nele, estavam oscilando horizontalmente ou fixados para o lado inferior esquerdo, não olhando para o altar em nenhum momento. O jovem padre apressou as formalidades para que pudesse logo iniciar a imposição de cinzas e assim aproximar-se da prima.
Os fiéis organizaram uma fila, Abigail levantou-se e tomou seu lugar, sentia um tremor intenso e dores pelo corpo, como se tivesse caído de um cavalo, a voz de mulher continuava falando em sua cabeça, mesmo dentro do santuário, mas Abigail a ignorava e acreditava que com a imposição de cinzas, aquele castigo terminaria. A voz continuava blasfemando, distorcendo o latim e mesclando-o com insultos em português: “ordinarium meretricem miserere nobis” e provocações como “ele vai cavalgar você! Não é o que você quer, Abigail” e as outras vozes se ouviam ao longe dizendo “Mula-sem-cabeça”, “Mula Maldita”, e vozes de crianças dizendo “quem chegar por último é a mulher do padre”, seguida de risos que se misturavam às palavras sacras dos sacerdotes.
Quando chegou a sua vez, Abigail olhou com angústia nos olhos do primo e não conteve as lágrimas, dizendo apenas: “Me ajude, por favor!”. O primo desconcertado, continuou a cerimônia, tomando nos dedos um pouco da cinza benzida, estendeu a mão e desenhou uma cruz na testa de Abigail. Quando sentiu sua pele sendo tocada pelas cinzas, Abigail sentiu como se uma brasa ardente queimasse sua fronte e soltou um grito estridente, como se tivesse sendo marcada com um ferro em chamas.
A jovem afastou-se do padre e correu para a pia de água benta tentando molhar o ferimento e diminuir a queimadura. O grito de Abigail causou um escândalo e as pessoas ao redor começaram a observar a jovem preocupados com o que poderia estar acontecendo. Já prestes a tocar a água benta, a voz de mulher advertiu-a cantarolando: “Isso vai te queimar! Isso vai te queimar! Ele vai te cavalgar! Você vai ter que aguentar!”
Abigail teve medo de tocar a água benta e desistiu, mas a queimadura em sua testa continuava como se fosse um ferimento aberto, Afrânio tentou acalmar a moça, mas ela o rejeitava afastando-o com a mão esquerda, enquanto a mão direita pousava sobre a cruz de cinzas em sua testa. A igreja estava em silêncio, algumas senhoras idosas se persignavam, o velho sacerdote esperava alguma atitude de Afrânio que estava parado sem saber o que fazer. Sentia a perplexidade no silêncio das pessoas que a olhavam e o julgamento cruel das vozes em sua cabeça, que a quietude tornava mais nítidas.
Envergonhada e sozinha, Abigail levantou-se e deixou a igreja, caminhando pelo meio do santuário. Ao se aproximar da tia, olhou-a nos olhos com uma expressão de ódio. D. Leontina chegou a sentir tonturas e sentou-se abalada. Afrânio deixando a cerimônia aos cuidados do seu superior, seguiu ao encontro da prima, sob o olhar aterrorizado de D. Leontina. Sob o sol quente do meio dia, Afrânio correu em vão na tentativa de alcançar Abigail, que desapareceu inexplicavelmente.
Ao fim da tarde, Afrânio e os familiares organizaram uma busca pela moça nos arredores do vilarejo. D. Leontina comentou com D. Eulália que suspeitava que Abigail estava se transformando em uma mula-sem-cabeça. Já D. Eulália preocupada preveniu suas filhas, para que não saíssem de casa à noite. As filhas de D. Eulália, rapidamente comentaram com suas primas que comentaram com as vizinhas e assim a busca por Abigail ganhou verdadeiros ares de Inquisição.
Afrânio suspeitava de um local para onde Abigail poderia ter ido, mas pensando em preservar a prima, decidiu que não iria levar as pessoas até lá. Premeditadamente, elaborou um arranjo para que ele conseguisse chegar sozinho ao local onde Abigail se refugiava. Era uma gruta de pedra, com uma pequena nascente, que ficava na propriedade de seu pai e na qual havia um pequeno oratório abandonado, que devia ter pertencido a algum devoto eremita.
O instinto de Afrânio estava correto. Abigail estava lá, deitada no escuro em um colchão improvisado de capim, chorando, com os ouvidos tapados e com o terço junto aos lábios. Prevendo a escuridão, ele levou algumas velas e iluminou um pouco o local. Ao vê-lo, Abigail confessou:
_ Eu não tenho culpa de te amar, eu não queria pensar aquelas coisas, eu não quero ser uma mula-sem-cabeça! Tire essa maldição de mim antes que comece e se for preciso me mate!
Afrânio ficou espantado com aquelas palavras e nada respondeu. Apenas sentou-se junto a sua prima, pensando em confortá-la e passar a noite com ela ali, protegendo-a até que amanhecesse.
A presença do primo trouxe-lhe um pouco de paz, as vozes entretanto continuavam dizendo coisas vis e incentivando-a a seduzi-lo ali: “Ele não resistirá se você se despir”, “Ele vai montá-la essa noite”, “isso era tudo o que você queria, não é, Abigail?
Ela ignorava as vozes, mas ainda sentia a cabeça queimando, como se estivesse em chamas. sentia que a queimadura aumentava e subia por sua cabeça, destruindo seu couro cabeludo. A voz de mulher se destacou em seu pensamento e declarou entre as gargalhadas das outras vozes: “Está começando, Abigail! Ainda esta noite você irá galopar por sete vilarejos, sua cabeça vai queimar até ficar como uma tocha!” No desespero daquele fogo que sentia em sua testa, afastou-se de Afrânio e sem dar-lhe explicações saiu correndo da gruta e embrenhou-se na mata. Afrânio tentou alcançá-la, mas não conseguiu e perdeu-a de vista.
Enquanto corria Abigail sentia sua cabeça incendiando-se, tentava apagar as chamas com as mãos, mas não sentia mais seu rosto, era como se suas mãos apenas atravessassem as chamas que envolviam sua cabeça. Ela continuou correndo pelo descampado sentindo a cabeça em chamas, estava descalça, mas não sentia dores ao pisar as pedras, um sentimento de liberdade tomou conta de si, pois enquanto corria, as vozes calavam em sua cabeça. Ao passar diante de uma porteira, Abigail parou. A escuridão da noite parecia-lhe menos intensa, o fogo que sentia em sua cabeça parecia estar consumindo as vozes, seu corpo parecia mais forte e seu desejo aceitar o cruel destino da maldição e correr até o fim do mundo. Diante daquela porteira, Abigail entregou-se ao que ela acreditava ser o processo de metamorfose. A jovem despiu completamente o vestido que já estava parcialmente destruído, deu alguns passos sentindo o vento da noite em sua pele, alguns cães latiam próximo a cerca de madeira, pareciam reverenciá-la, ela gritou para eles e percebeu que sua voz não saía, mas seu grito silencioso fazia aumentar as chamas em sua cabeça, ela gritou então mais alto e com seu grito uma tocha radiante de fogo clareou o pasto. Abigail sentiu como se uma onda de calor percorresse todo seu corpo e caiu em terra, sentia-se mais pesada e forte, sentia os ossos de seus braços ganhando vida, sua pele escurecia e pêlos cresciam por todo o seu corpo, tremores intensos a sacudiam e ela rolava sobre a vegetação rasteira, sentiu sua coluna alongando-se e formando uma longa cauda que ela conseguia mover como se fosse um terceiro braço. Sentindo-se uma quadrúpede equina, Abigail experimentou um misto de confusas emoções, soltou outro grito silencioso e sentiu sua cabeça flamejante iluminar a planície. Aceitando seu terrível destino, Abigail continuou galopando sem destino, por aquela escura noite de Quaresma.
Pela manhã, despertou ao lado de uma porteira não muito longe dali, uma mula cinzenta pastava tranquilamente a poucos metros de onde ela estava caída, nua, com o corpo cheio de hematomas e arranhões. Não se lembrava de como chegara até ali. Sua última lembrança era a de ter entrado na fila para receber as cinzas benzidas na igreja. Sem saber o que fazer, caiu em prantos e chorou copiosamente, desejando a morte.
Naquele estado depressivo, entregou-se ao sentimento de vazio, inerte, imóvel, solitária, ter sono já era um alívio, como se uma gota de misericórdia gotejasse do céu e apagasse seu sofrimento por alguns momentos. As vezes, abria os olhos e via os animais, cavalos, vacas, aves brancas com pernas compridas, formigas passeavam pelo seu corpo, se a mordiam ela já não sentia. Voltava a fechar os olhos e adormecia novamente. Não sentiu fome ou sede, não sentia dor, não sentia nada.
Abriu novamente os olhos e viu um par de botas diante dos seus olhos, logo o calor suave do que deveria ser um tecido confortável cobrindo sua pele. Sentiu-se envolvida como um bebê, como se alguém a carregasse nos braços. Talvez um anjo caridoso a tivesse recolhido, um anjo com botas de couro curtido. Nas vezes em que abria os olhos, percebia rostos familiares, mas suas vozes eram longínquas, assim como suas lembranças. Uma voz continuava falando em sua cabeça, uma voz menos agressiva que perguntava: “o que será dela?”, sem receber resposta.
Um dia percebeu que a estavam vestindo para sair. Reconheceu o rosto de seus pais e seus irmãos, como se lamentassem algo. Ela se percebia caminhando, mas era como se observasse outra pessoa vivendo a sua vida. Enfim reconheceu o rosto doce de seu primo Afrânio, vestido em roupas comuns, sem o costumeiro traje sacerdotal. Enquanto caminhavam pela rua, ela percebia o rosto das pessoas que conhecia e a cumprimentavam, ela tentou sorrir para elas, mas não parecia surtir efeito, pois o olhar que recebia delas não era de alegria, senão de pena.
Abigail reconheceu quando chegaram à estação de trem. Afrânio carregava algumas malas e então ela percebeu que estavam partindo em alguma viagem. Não sabia para onde iriam, mas estava feliz porque Afrânio estava com ela. As vezes, ela percebia seu rosto aproximando-se do dela e tocando sua boca com um lenço. Talvez quisesse beijá-la, mas desistia. Quando embarcaram no trem, ele sentou-a próximo a uma janela, o mundo passava rápido pela janela, muitas e muitas montanhas verdes, animais, pássaros, um rio comprido. As vezes, ela adormecia, mas despertava com as bruscas paradas ou com o barulho intenso do apito do trem.
Quando enfim chegaram ao seu destino, Abigail não imaginava o motivo de estarem ali, mas sentiu inexplicavelmente um imenso alívio, uma esperança de voltar a ser feliz que ficava cada vez mais intensa com o delicado perfume de rosas que havia naquele lugar.

O Plano - Friendzone, capítulo 2

Clique aqui para ler o capítulo 1
Cassie e Sid, Skins UK, personagens
que indiretamente inspiraram este conto
- Você tem certeza de que quer fazer isso?

Um breve silêncio se seguiu. Os dois estavam sozinhos no elevador panorâmico de um famoso edifício comercial da cidade, onde consultórios médicos e clínicas odontológicas dividiam o espaço com imobiliárias e escritórios de contabilidade. Aqui e ali surgiam misteriosas salas não identificadas onde pessoas suspeitas entravam e saíam discretamente.

- Claro que tenho - ela respondeu - já cheguei até aqui, meu bem, não vou voltar atrás agora. Falou pressionando o botão que levava ao décimo andar.

Erick suspirou preocupado, mas assentiu.  Ambos se debruçaram sobre o suporte metálico do elevador, observando pelo vidro as pessoas abaixo deles ficarem pequeninas, como se um bando de liliputianos ali estivesse.

Melissa estava inquieta. Não soltava nem por um momento o pingente da Casa Stark pendurado em seu pescoço, bastante ansiosa, dava voltas com o lobo gigante pela corrente enquanto mordia o lábio inferior. 

Erick se aproximou timidamente e falou com o máximo de cuidado, como que evitando irritar a amiga:

- Sabe Mel, podemos voltar outro dia, não precisa fazer isso hoje. Você deveria falar sobre isso com sua mãe antes, se ela descobrir de outro jeito não vai mais confiar em você.

- Já está decidido coração, eu já tenho 16 aninhos, já passou da hora disso acontecer, minha mãe evita o assunto toda vez que menciono e isso é muito injusto comigo, afinal é da minha vida que estamos falando, concorda?  Basta seguir o plano.

A porta do elevador se abriu. No corredor vazio, o ruído agudo e constante de uma máquina de tatuar indicava que eles haviam chegado ao lugar certo.

Era um dos estúdios de tattoo mais famosos da região, recomendado pelo extremo profissionalismo do proprietário, tanto nas condições de higiene e trabalho como na perfeição de suas artes.

Na recepção, uma moça estava concentrada, desenhando fractais sobre uma mesa de vidro abarrotada de ilustrações. Muitas tatuagens adornavam seu ombro, peito e braços. Sua pele era muito branca e seus cabelos muito escuros, usava uma camiseta com a frase “Keep calm and don´t blink”, uma referência a Doctor Who. Naquela sala impecavelmente limpa e organizada, fotos de pessoas tatuadas estavam cuidadosamente expostas nas paredes, ao lado de muitos certificados e troféus.

Antes de abrirem a porta, Melissa hesitou por um momento e desabafou:

- Estou nervosa Erick...

Ao invés de abrir a porta, Melissa deu um giro e encostou-se à parede de modo que a recepcionista não a visse, os dois se afastaram da porta, foram até o fim do corredor e sentaram nos degraus da escada de emergência.

-Eu pensei que seria mais fácil, sabe... Sua voz embargou. Um suspiro profundo precedeu a tentativa inútil de não chorar. Sentiu as lágrimas fluindo e virou o rosto, tentando sem sucesso enxugar a face molhada. Erick não sabia o que fazer. Homens nunca sabem o que fazer quando as mulheres choram, ficam em pânico, cedem a chantagens, pedem desculpas sem serem culpados, de fato as lágrimas femininas são como kriptonita para marmanjos. Abraços costumam ser a solução.

Todavia, o universo é na verdade um sacana de proporções macrocósmicas e a posição em que os dois estavam sentados na escada desfavorecia qualquer abraço. Virada para a parede, ela chorava em silêncio, com o rosto entre os joelhos, assumindo de vez a fragilidade que nunca demonstrava. Seu escudo contra o mundo consistia em esconder o rosto e manter os olhos fechados, enquanto seu corpo insistia em sacudi-la com espasmos tão fortes que lhe dificultavam a respiração.

Erick sabia que precisava intervir. A solução lógica que encontrou foi esperar que ela se acalmasse pra repensarem juntos o próximo passo. Acalmá-la era o mais urgente, por sorte próximo dali havia um desses bebedouros com copos descartáveis destinados aos visitantes do edifício. Ele encheu um copo com água e desceu alguns degraus para ficar diante dela:

-Beba um pouco, isso vai te acalmar!
-Você é um fofo... Obrigada!
-Se quiser podemos voltar outro dia, não precisa fazer isso hoje.
-Não vou mais adiar isso Erick, é só seguir o plano, eu vou me controlar, prometo!
-O importante é você entender, que voltar pra casa ainda é uma opção.
-Não sou covarde, Erick.
-Mas também não precisa provar nada pra ninguém.
-Você não entende, eu preciso fazer isso!
-Fazer o quê?
-Olhar nos olhos dele.

Aquela resposta encerrou o diálogo, sem argumentos Erick apenas observou-a levantando-se e recompondo-se. O rosto branquinho da menina estava rosado, seus olhos levemente avermelhados brilhavam suavemente devido às suas recentes lágrimas, entretanto observar o amigo desconcertado tentando acalmá-la produziu-lhe um doce, discreto e espontâneo sorriso.

-O plano é entrar, mostrar o desenho da tatoo, apresentar a autorização assinada pela minha mãe e pronto.

-Pode ser que eles queiram que sua mãe esteja presente.

-Se quiserem a gente cai fora, diz que volta depois e pronto, o que não podemos é voltar sem tentar.

-Vamos lá então, está preparada?

-Eu já nasci preparada!

Ambos riram. O clima ruim havia passado e a antiga Mel estava de volta, agarrada como de costume ao braço do amigo, puxando-o em direção ao estúdio de tatuagem. Esses breves momentos de contato físico eram o ápice do dia de Erick. Melissa era uma garota muito sinestésica dessas que adoram abraçar sem motivo, não tinha problemas em tocar e ser tocada pelas pessoas em quem confiava. Erick por sua vez, era discreto quanto a demonstrações públicas de afeto, mas aproveitava cada milissegundo daqueles abraços, ao ponto de reconhecer o cheiro do condicionador que ela usava, assim como o do perfume e do brilho labial.

Despistaram mais um pouco diante da porta de vidro, até que a mão hesitante de Melissa forçou a porta pra dentro, chamando a atenção da moça que estava distraída no computador.

-Olha, temos visita! Exclamou a recepcionista num tom surpreso – Em que posso ajudá-los?

Melissa olhou com certo desdém pras gengivas salientes da moça, cujo sorriso lhe parecia irônico e forçado. Já os olhos de Erick foram atraídos automaticamente para o decote generoso da garota, cujo peito estava totalmente colorido pelas muitas tatuagens que lhe cobriam. Uma cruz celta adornada com muitos detalhes simbólicos estava tatuada exatamente entre os dois seios e de uma clavícula à outra, uma frase em latim dizia: “Temulentus dormiens non est excitandus”. No ombro esquerdo, havia uma caveira mexicana com flores vermelhas nos olhos e no direito um anjo guerreiro segurando uma espada. No pulso da mão que manipulava o mouse, um rosto de mulher estava desenhado sobre duas letras rosadas, um “S” e um “G”. Numa das orelhas repousava um lindo ear cuff em forma de dragão.

Melissa vestiu sua face mais simpática e devolvendo o sorriso disse:

-Então... Quero fazer uma tatuagem e minha mãe exigiu que eu pesquisasse o melhor lugar da cidade. Nisto encontrei vocês e aqui estou, trouxe comigo toda a documentação que o site exigia.

-Entendi. E o namoradinho aí... Veio só conferir se o tatuador era gato?

-Não somos namorados! Responderam em uníssono.

-Bem que ele queria... Brincou Melissa vendo o amigo corar.

O olhar irônico da recepcionista deixou Erick envergonhadíssimo, acrescido de um sorrisinho sarcástico de quem queria continuar aquele assunto, mas precisava continuar as formalidades.

Melissa entregou-lhe os documentos e a autorização.

Aqueles documentos eram todos verdadeiros, a mãe de Melissa realmente aprovou e assinou todos aqueles papéis e estava ansiosa pra ver a primeira tatuagem da filha, uma estrelinha inocente na nuca escolhida no catálogo de outro tatuador, conhecido de sua mãe. Mas Mel tinha outros planos, convenceu a mãe a deixá-la ir sozinha com Erick, desmarcou com o outro estúdio e foi tentar a sorte com os documentos ali.

Erick se sentia culpado por enganar a mãe da amiga, que confiava tanto nele, mas concordou com o plano por que entendia a real motivação de Melissa. Ambos estavam ansiosos ali sentados, em cadeiras almofadadas.

A recepcionista se levantou e entrou na sala do tatuador, deixando-os sozinhos por alguns instantes. De repente, Erick sentiu um beliscão no braço.

-Ai! Tá ficando louca?

-Pare de olhar pro decote dela, seu safado!

-Eu não estava olhando – mentiu desconcertado.

-Estava sim, seu ridículo! Não minta pra mim e aprenda que toda mulher sabe quando um homem está olhando pros peitos dela, você não sabe nem disfarçar!

-Espera ai, todas as mulheres sabem quando um homem está... Você sabe, olhando? – perguntou Erick num tom de inocência e preocupação.

-TODAS! E isso inclui a mim, ou você pensa que nunca flagrei suas olhadelas antes, seu pervertido!

Erick não sabia onde enfiar aquela cara vermelha e sardenta, o coitado ficou com a boca aberta, mas não conseguiu responder nada, porque nenhuma palavra se dignou a sair pela sua boca, ficaram todas presas na garganta, algumas até mesmo zombando dele.

Para sorte do rapaz, a recepcionista interrompeu aquele momento constrangedor, abrindo a porta, disse:

-Mostrei o desenho para o tatuador e ele disse que consegue te atender em 20 minutos – você deu sorte hoje, por coincidência, um cara que ia fazer um dragão nas costas teve que viajar e desmarcou.

-Não confunda coincidência com destino, Jack! Respondeu Melissa sorrindo.

-Olha, temos uma fã de Lost aqui? Disse a moça.

-Dois fãs – disse Erick timidamente.

-Gostaram do final?

-Eu gostei. Já o Erick não.

-Não é que eu não tenha gostado, mas tipo eu esperava mais do Jacob.

-Mas concordamos que os 12 minutos extras que divulgaram deixaram claro que a ilha continua e que ...

-Fica quieta Mel! Interrompeu Erick- você não sabe se ela já assistiu tudo, já ia soltar spoiler.

-Eu não ia dar spoiler, Erick.

-Ia sim.

-Falar aquilo não é spoiler, eu só ia falar do Walt.

-Shhhh!!!!! Isso é spoiler, Mel!

-Calma, fiquem tranquilos, ninguém se preocupa mais com spoilers de Lost, estão todos mortos mesmo e no demais, eu assisti ao DVD e já sei sobre o Walt.

-Mas não estão todos mortos – disse Erick

-A propósito, qual é mesmo o teu nome? Perguntou Melissa, interrompendo a breve discussão.

-Mirella! 

-Você é muito bonita, Mirella. Gostei muito das tuas tatuagens.

-Tenho várias, comecei aos 15, minha primeira foi na nuca também como a sua, achei que se não gostasse, era só deixar o cabelo cobrir. Mas acabei gostando e fui fazendo, hoje tenho 11 tatuagens espalhadas, só no ano passado fiz cinco.

O telefone tocou. Mirella teve que interromper a conversa e resolver coisas do trabalho. Melissa estava nervosa, mas conversar a fazia esquecer a ansiedade, o verdadeiro motivo que fizera com que ela, uma boa menina, mentisse pra mãe e entrasse numa aventura que com certeza mudaria sua vida.

Ela e o amigo ficaram sozinhos novamente. O silêncio foi quebrado quando Mirella, saindo da sala com o telefone no ouvido, aumentou o som do computador pra que eles pudessem ouvir, estava tocando AC/DC.

Os dois ficaram em silêncio, curtindo o riff lento de guitarra dos irmãos Young. Melissa recostou-se discretamente ao braço do amigo e esticou as pernas para o lado, a ausência de palavras no mundo exterior aumentava o volume dos seus pensamentos, neles a voz de sua mãe era a mais alta, ecoava de maneira estridente fazendo-a sentir-se culpada por aquela atitude, sua própria voz em sua mente interrompia a discussão interna, argumentando sobre seus sentimentos e sobre livre arbítrio, aos poucos todas essas frases mentais se misturavam com a voz de Brian Johnson nas palavras da música “Rock N' Roll Ain't Noise Pollution”.

Em determinado momento, Melissa cantarolou uma parte da música:

- “We're just talkin' about the future
Forget about the past
It'll always be with us
It's never gonna die, never gonna die”

A letra da música fez muito mais sentido naquele momento, foi como uma confirmação, algo que tirava o peso do erro que castigava sua consciência.

-Estamos falando sobre o futuro Erick, o meu futuro.

-Estamos?

-Deixa pra lá, estava viajando aqui.

-Percebi.

-Já pensou no que vai dizer a ele?

Antes que ela respondesse, a porta se abriu e uma ruiva saiu da sala de procedimentos, com a panturrilha envolvida em filme descartável, tinha uma coruja colorida recém-tatuada. Acompanhando a moça vinha o tatuador, risonho e simpático, vinha falando com a moça sobre alguma coisa que parecia muito engraçada. Mas Melissa não ouviu nada daquilo, seu coração apenas disparou enquanto ele passava, sua respiração ficou difícil e uma sensação de frio cortante percorreu lhe o corpo por alguns instantes.

Igor era o nome do cara, usava o cabelo longo amarrado às costas, loiro escuro com algumas mechas mais claras, aparentava não mais que 35 anos de idade, tinha dentes perfeitos levemente separados entre si e quando sorria algumas marcas de expressão se formavam ao redor dos olhos verdes. Era alto e robusto, seus passos eram pesados e mesmo sério parecia estar sorrindo, com um ar involuntário de deboche. Usava um jaleco branco, sobre uma camiseta do Steppenwolf com calças jeans bastante surradas. Ao vê-los esboçou um breve sorriso e ergueu as sobrancelhas, numa saudação silenciosa.

Igor retornou rapidamente para a sala de procedimentos, Mirella entrou em seguida deixando a porta entreaberta, um breve diálogo pode ser ouvido entre eles:

- Já posso chamar a menina?

- Pode sim, vou usar aquele outro kit.

-Não quer dar um tempo?

-Não precisa. Você já revisou a documentação?

-Já sim, tá tudo certo.

- Pode trazê-la então.

Ao ouvir aquilo, Melissa apertou as mãos de Erick:

-Olha como minhas mãos estão frias.

-Fique calma.

-Até parece que falar isso resolve alguma coisa.

-Então, não fique oras.

-Ui... Olha quem está nervoso também.

-Desculpe.

-Idiota.

-Ridícula.

-Baka.

-Poser.

-Te Odeio!

-Mentira!

-Mentira mesmo!

Os dois começaram a rir, aquele riso de nervoso que surge nos momentos onde devíamos estar sérios. Disfarçaram quando Mirella olhou, mas foi inevitável que ela percebesse:

-O que foi? Perguntou Mirella, rindo também sem saber de quê.

-Nada – respondeu Melissa – esse menino que é um bobo.

-Eu? – disse Erick desconcertado – Fiz nada.

Um breve silêncio interrompeu aquele diálogo inútil.

- Vamos lá então? Perguntou a recepcionista.

-Vamos! Dizendo isso Melissa se levantou e olhou para Erick. 

Aquele olhar dizia muito, foi longo e profundo, comunicava uma grande decisão e só os dois entendiam o que aqueles poucos passos significavam.

Igor estava sentado detrás de uma mesa quando Melissa adentrou a sala de procedimentos, ele sorrindo pediu que ela se sentasse. A sala tinha som ambiente e estava tocando Smoke on the Water, do Deep Purple. O jaleco estava pendurado em um suporte enquanto ele mexia em alguns equipamentos, deixando seus braços expostos e permitindo que Melissa visse as muitas tatuagens que ele possuía. Igor tirou o controle remoto de uma gaveta e apontou para o equipamento de som, a fim de baixar o volume para que pudessem conversar, fazendo isso esticou o braço na direção do home theater.

Melissa então percebeu algo no braço do tatuador que a fez estremecer. Igor tinha um nome tatuado na parte inferior do antebraço direito, numa caligrafia adornada em verde e vermelho. Para surpresa da menina, era o nome dela tatuado ali.

Ficou pensando se falava com ele logo de uma vez, durante o procedimento, ou depois da tatuagem pronta, ou nunca. O medo aumentava a vontade de ir embora e ver aquela tatuagem deixou-a muito confusa, ao mesmo tempo feliz e revoltada. Estava na verdade mais feliz do que revoltada, infelizmente descobriu que não era tão manipuladora quanto pensava ser, pois já estava a ponto de abrir a boca, pulando umas duas etapas do seu plano original.

-Você acredita que as pessoas mereçam uma segunda chance? – Perguntou Melissa repentinamente.

-Me pegou de surpresa!- disse sorrindo - acredito que sim, errar é humano não é? Acredito que algumas pessoas merecem uma segunda chance sim. Alguém te magoou?

- Sim, mas quero saber o motivo, dar a chance do cara se explicar sabe...

-Algum namorado?

-Talvez sim.. talvez não. Disse ela sorrindo.

Igor riu também, chegou mais perto dela e reparou em suas feições, antes que ele falasse alguma coisa, ela começou a falar sobre a tatuagem:

- Você achou minha estrelinha muito simples? Acha que vai ficar bonita?

- Claro. Excelente escolha pra quem está começando, é pequena e você vai fazer em um lugar que normalmente é coberto pelo cabelo, sendo uma estrela vazada, será um procedimento rápido, acredito que será a primeira de muitas outras. Vamos começar?

Melissa concordou e esperou que ele preparasse tudo o que faltava, sentou-se em uma cadeira apropriada, macia e bem confortável. Igor provavelmente ficaria de pé, pois ela não viu uma cadeira reservada para ele. Observou-o preparar todo o material necessário, touca, luvas e outros itens relacionados. Estava enfim conseguindo, o que queria.

Enfim, o procedimento começou. Ela colocou uma touca também para evitar que o cabelo atrapalhasse, sentiu algo frio sendo esfregado em sua pele e depois algo como papel ou plástico, era o desenho da estrela sendo “impresso” em sua nuca. Quando ele esticou o braço para descartar alguma coisa, pode ver de novo a tatuagem com seu nome, agora coberta por uma luva transparente.

- Você percebeu que meu nome é o mesmo que está tatuado no seu braço?

Igor fez uma pausa, olhando instintivamente para o próprio braço.

-Longa história – ele disse - percebi sim, mas você estava falando outras coisas e não quis te interromper. Até por que as Melissas que vieram antes pediram desconto quando comentei! Disse em tom de brincadeira.

Ambos riram.

-Ela deve ter sido muito especial, ao ponto de te fazer tatuar o nome dela.
-Foi sim – seu tom de voz era baixo, melancólico. Um suspiro profundo mudou-lhe o semblante, antes espirituoso, agora entristecido.
-Desculpe, não queria ser intrometida.
-Você não tem culpa. Fique tranquila.

O procedimento começou, os pensamentos de Melissa faziam com que a dor fosse diminuída, ela mal sentiu as agulhas furando sua pele, tudo o que sentia era a dúvida, a covardia e a coragem brigando dentro de si. Sem saber a razão, dentro de sua mente, ela cantarolava “Catch a falling star, and put it in your pocket, save it for a rainy day”, de alguma forma a canção a distraía. Ao fim de oito minutos, a tatuagem estava pronta e o momento decisivo tinha chegado.

-Terminamos – disse ele, limpando e cobrindo o local.

- Na verdade, não terminamos – disse Melissa, num tom sério.

-Como assim?

-Sei que você fez essa tatuagem há dezesseis anos, Melissa era o nome da filha que você teve com uma garota que conheceu numa festa em 1996, ainda se lembra dela, a Luciana? Vocês namoraram por um tempo, mas brigaram e se separaram pouco antes que o bebê nascesse.

Melissa fez uma pausa dramática, enquanto tentava não chorar, a voz embargou, mas ainda conseguiu continuar:

-Cara, você pelo menos chegou a me segurar quando nasci?

As lágrimas eram como gotas de sangue no rosto da menina.

-Que ironia! – disse ela rindo em meio às lágrimas -Algum dia imaginou que tatuaria a sua própria filha sem saber?

Perplexo, Igor emudeceu diante das palavras de sua filha, a filha da qual desistira quando jovem, mas que como um espinho na carne que lhe causava insônia todas as noites. Em seus sonhos, ele sempre se via deixando um bebê no asfalto, enrolado em um manto rosado, quando de repente, perdia os movimentos do corpo e a única coisa que ouvia era o choro estridente da bebezinha. Acordava se sentindo um covarde, um criminoso, a pior pessoa do mundo. Mas tinha que manter-se calmo agora, não podia estragar tudo daquela vez. Pegou o telefone e falou com a recepcionista:

-Mirella, cancele todos os meus compromissos da semana e ligue para o meu advogado.

Quando a Lua se vinga


Aquele tinha sido um dia estranho no vilarejo, uma manhã calma e silenciosa, uma tarde de muitos ventos, nenhuma nuvem no céu de um outono frio. O sol parecia mais apressado do que de costume e já seguia seu caminho rumo ao ocaso dando lugar a uma pálida escuridão.

A estrada para a cidade de Akello, cortava o vilarejo deRaani trazendo sempre forasteiros e viajantes, procurando por hospedagem. Os moradores que tinham boas casas, sempre alugavam quartos para os viajantes, contudo a principal hospedaria do vilarejo era mesmo a de Donkor Basiel, com muitos quartos, estábulo para os animais e uma taberna.

Naquela semana, um mercador da cidade de Nura trouxera alguns barris de uma safra especial de vinhos, o que atraía compradores de todas as terras da região, gerando bastante movimento, principalmente durante a noite.

A Lua cheia erguia-se no leste, quando começaram a chegar cavaleiros, servos e vassalos de Sor Abod, para provar do precioso vinho cultivado nas terras de NuraHamza, o caçador e seus dois filhos chegaram ao anoitecer, seguidos pelos servos de Sor Emmet.

Pouco tempos depois das estrelas da Serpente Alada surgirem no céu, Anke e Kimei, sobrinhos de Sor Dosha, chegaram fazendo muito ruído, rindo e falando alto.

Esses dois irmãos eram conhecidos baderneiros e já estariam mortos se não fossem sobrinhos do temido Sor Dosha, vassalo de Lorde Tau, o Senhor de Akello. Dentro da taberna, encontraram os servos de Sor Abod e começaram a provocá-los, zombando deles das diversas maneiras, os servos ouviam as provocações mas se limitavam a ignorá-las, mesmo sabendo que qualquer um deles poderia derrotá-los no caso de uma briga. Mas se isso acontecesse, seus senhores iriam se enfrentar e haveriam muitas outras mortes. Alguns deles ainda se lembravam da Batalha do Vale da Figueira, o último confronto entre Sor Abod e Sor Dosha. A paz só fora alcançada com a intervenção diplomática de Lorde Tau e era mantida com muita dificuldade.

A noite estava clara e por algum motivo qualquer, os dois resolveram sentar-se ao ar livre, numa mesa de madeira do lado de fora da taberna, para a discreta alegria de todos. Mesmo do lado de fora, gritavam como loucos, rindo e se ofendendo mutuamente.

_ Prostitutas! Gritavam do lado de fora. Não há mulheres nesta taberna, Donkor, seu maldito!

E realmente não haviam. Donkor Basiel, tinha esposa e filhas. Não permitia prostitutas na sua estalagem.

Não haviam bordéis em Raani. Uma cortesã, chamada Shifapercorria os vilarejos numa pequena comitiva com algumas prostitutas em três carroças e como não eram bem vindas ali, normalmente paravam sua comitiva num descampado á beira da estrada, próximo ao rio.

Os dois irmãos continuavam do lado de fora pedindo por prostitutas e gritando todo tipo de imoralidades.

Donkor, seu maldito, vá buscar a velha Shifa, pagarei uma moeda de prata por um par de coxas quentes - gritou Kimei.

_ A velha Shifa está no descampado – gritou um dos servos deSor Emmet – chegou de Limber há dois dias, com algumas mulheres novas, uma delas é da Ilha de Nayo.

As mulheres da ilha de Nayo, eram reconhecidas por sua extrema beleza, dizia-se que eram descendentes de uma das criaturas do mundo antigo, tinham rostos perfeitamente simétricos e cabelos de diferentes cores, eram cobiçadas em todos os reinos e quando se tornavam prostitutas cobravam fortunas por seus serviços.

_ Por que não nos disse isso antes, filho de Shifa ! - gritou Anke, enquanto pensava em se levantar para ir até o acampamento das prostitutas. A noite estava clara e o acampamento não ficava tão longe, se era possível chegar lá rapidamente caminhando pela estrada, cavalgando seria ainda mais rápido. Os dois baderneiros começaram a preparar seus cavalos quando avistaram uma mulher caminhando pela estrada vindo em direção ao vilarejo.

_ Parece que não teremos que cavalgar tanto afinal – comentou Kimei com seu irmão, insinuando que a mulher que vinha sozinha pela estrada seria uma das prostitutas de Shifa.

Os dois caminharam até a beira da estrada para abordarem a jovem que caminhava. Deve estar vindo à procura de homens – pensaram eles. Enquanto ela se aproximava, puderam notar sua extrema beleza. Tinha cabelos pretos, que o vento da noite teimava em movimentar, a luz da Lua evidenciava a pele branca do seu rosto, entretanto não se vestia como uma prostituta, pelo contrário, usava uma espécie de manto sobre o vestido que lhe cobria quase todo o corpo. Deveria ser uma daquelas mulheres exóticas da Ilha de Nayo - pensaram - tinha muitos anéis e pulseiras, mas um único colar cujo emblema não conheciam. Quando se aproximou, revelou um par de olhos azuis inacreditavelmente belos. Excitados por aquela beleza sobrenatural, os dois interpelaram a jovem mulher, com gracejos e pantomimas.

_ Ei Dama dos Prazeres! - gritou Kimei - venha provar sangue nobre! Se for uma boa égua esta noite, comerá pasto verde pela manhã! 

Os homens da taberna, saíram para ver a tal mulher da estrada. Se fosse mesmo uma prostituta procurando por homens na taberna, Donkor certamente a mandaria de volta para Shifa e provavelmente, os sobrinhos de Sor Dosha regressariam com ela para o acampamento.

No entanto, a jovem não era uma prostituta e ignorando os gritos deles, continuou seu caminho a pé pela estrada em direção a Akello. Enfurecidos pela indiferença da moça, correram em sua direção na intenção de tomá-la à força.

Se fosse uma prostituta não recusaria a oferta deles – pensouDonkor – e ao ver que os rapazes corriam para violentá-la chamou os homens que estavam na taberna para impedi-los.

Os dois saltaram violentamente sobre ela, Anke a agarrou por trás impedindo que ela movesse os braços enquanto Kimeivindo pela frente, com as  duas mãos apertava o rosto da moça e ria dizendo obscenidades. Donkor e os outros em vão gritavam para que eles parassem com aquilo e não fizessem mal à moça. Alguns milicianos seguravam suas espadas, aguardando apenas que Donkor os convencesse a parar. Na janela da casa, a esposa e as filhas de Donkor Basielacompanhavam a tudo aquilo, desesperadas  e compadecidas da pobre moça, ao mesmo tempo temendo o que aconteceria se Donkor ferisse os sobrinhos do temido nobre.

Ninguém até então tinha reparado nas feições da jovem que estava sendo atacada. Com o semblante estranhamente tranquilo, olhando fixamente para Kimei, a jovem começou a falar, num idioma desconhecido.

_ Alore Elasha ... Alore Ro ... Alore Shemevi ... Alore Kediv !

De repente, Kimei começou a sentir suas mãos adormecendo, sentiu câimbras em todos os músculos do corpo, perdeu as forças nas pernas e caiu no chão, caído pode ver seu irmão tendo convulsões e se debatendo na poeira da estrada. Tentou gritar, mas a sua voz não saía, um zumbido estridente soava em seus ouvidos causando-lhe uma dor intensa, sangue escorria por todos os orifícios do seu corpo, tentou mover-se, mas estava paralisado. Enquanto sua visão escurecia, ainda conseguiu ver seu irmão se revirando no chão, enquanto as pernas da moça se afastavam continuando seu caminho. Seus pensamentos mergulharam num silêncio tenebroso. Por fim não sabia se estava vivo ou morto, uma terrível angústia foi toda a vida que lhe restou mergulhado naquela densa escuridão.

Um temor profundo se abateu sobre todos os que assistiram aquela cena, muitos deles lembrando das lendas antigas já imaginavam o quê haviam presenciado. No alto, as filhas de Donkor espiavam por uma fresta da janela, enquanto sua mãe lhes explicava que em noites de lua cheia, mulheres belíssimas, conhecidas como "Filhas da Lua" caminhavam pelas estradas procurando por homens gentis que merecessem desfrutar um cêntimo dos seus encantos. Nas maioria das histórias, elas eram ajudadas por bondosos cavaleiros que lhes ofereciam escolta e proteção, sendo presenteados com noites inesquecíveis de paixão e luxúria. Não obstante, quando encontravam homens ruins, que tentavam fazer-lhes mal, se defendiam amaldiçoando-os numa língua antiga, conhecida apenas por elas. Os amaldiçoados cairiam numa demência profunda, permanecendo num estado deplorável de semi-vida. Muitos eram encontrados, ainda vivos sendo comidos pelos vermes da terra, outros por sorte, encontravam alguma alma grande que lhes desse o ultimo golpe de misericórdia, fosse com uma espada afiada ou com um simples travesseiro. Naquela mesma noite, mensageiros de Donkor foram enviados ao castelo de Sor Dosha para que a família tomasse providências, pois nenhum dos presentes ousaria tocar os corpos dos amaldiçoados.

Desde então, as pessoas começaram a chamar aquele lugar de"Iasi Erim" que na língua antiga significa: "Quando a Lua se vinga".